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VIII Português de Sociologia – Évora, 2014

Identidades, valores e modos de vida: call for papers

A problemática das identidades, valores e modos de vida é central para compreender os processos de transformação, mudança e status quo que caracterizam Portugal realizado, projectado e imaginado nos últimos quarenta anos.

Como nos congressos anteriores, esta área temática propõe uma linha teórica orientadora dos trabalhos que enfatiza a problematização das tensões e das ambivalências dos processos de construção, reconfiguração e resignificação das identidades do nível individual ao social, e em diversos domínios, incluindo os das classes sociais, trabalho e família, consumo, religião, memória e perspectivas de futuro.

Este exercício de análise respeitará certamente aos traços do Portugal contemporâneo e às formas políticas e culturais que o caracterizam, mas, até para ser sujeito a densificação problemática, pode ser cotejado em padrões históricos de individuação, de singularidade e de busca de reconhecimento.

Com efeito, há mais de 100 anos, no capítulo final de Filosofia do Dinheiro, intitulado «O estilo de vida», Simmel correlacionava a vida moderna, isto é, as formas de vida que se desenvolvem nas grandes metrópoles da modernidade, e uma certa economia psíquica que toma a forma individual como a sua forma arquetípica. À modernidade corresponderia pois uma A Sociedade dos Indivíduos, expressão que titula a conhecida obra de Norbert Elias.

Recentemente, Danilo Martuccelli argumenta a inflexão dos processos de individuação do individualismo para o singularismo. Segundo este autor, desde há algumas décadas que, nas sociedades do capitalismo avançado, se consolidou uma tendência que faz da singularidade ao mesmo tempo uma realidade e um projecto presente em diferentes domínios da vida social. Ao enfatizar o singularismo, Martuccelli, de um lado, convoca uma consciência socializada de si, a ideia dos indivíduos enquanto processos históricos em construção “para si mesmos”, constituindo-se através e nas relações sociais e, do outro lado, vinca a noção de que a singularidade não se afirma senão a partir do reconhecimento do comum. O singularismo supõe, assim, uma forte implicação dos indivíduos na sociedade, resultante do desejo de verem a sua singularidade reconhecida.

Trata-se de um entendimento convergente com os novos conteúdos do processo de individuação que, segundo A. Giddens, refletem uma pauta cultural marcada pelo imperativo da escolha como traço principal da experiência do mundo social e do qual decorre, na mesma linha de entendimento, a composição dos “estilos de vida” nas sociedades atuais.

Esta ênfase nas propriedades individualistas e singularistas das sociedades actuais, importa notar, serve não para limitar mas, sim, para abrir o leque de comunicações que a área pretende albergar. Se, com ela, podemos equacionar questões como: a) estarão os processos de individualização/singularização a minar as formas identitárias caraterísticas da modernidade organizada ou conhecerão estas apenas processos diversos de recomposição?; b) as articulações entre certas identidades, certos valores e modos de vida – por exemplo, a operária, a que corresponderiam valores e modos/estilos de vida próprios do operariado – terão cedido definitivamente, ou, ao invés, assistir-se-á “apenas” a realinhamentos significativos?; ou c) na bricolage individual das possibilidades identitárias produzir-se-ão hoje utopias identitárias sem topos?, contra ou à margem dessa ênfase, também queremos que nos tragam analíticas e evidência empírica que divirjam da “clivagem individualista” que, imaginar-se-ia, marcaria indelevelmente os processos sociais constitutivos das identidades e dos modos de vida atuais.

Fica, pois, o desafio para que todos aqueles cujos trabalhos originais se enquadram na área temática de identidades, valores e modos de vida, se nos juntem no VIII Congresso Português de Sociologia, apresentando e discutindo o conhecimento actualizado que vêm produzindo.